
No aconchegante café do Sr. Pestana, as conversas tomavam rumos inesperados, especialmente quando o protagonista, o próprio Sr. Pestana, decidia dissertar sobre suas teorias extravagantes. Sentado em sua cadeira preferida, ele proclamava com um ar de autoridade autoimposta: “O tempo é um gigante barbudo, sujeito! Se chama Sr. Pestana.“
Entre goles de café e risadas abafadas, ele continuava sua saga filosófica. “Veja bem, quando dizemos ‘de 5 min à 1h’, estamos cometendo um erro crasso! Ora, o tempo não é sujeito nem transitivo indireto ou direto! Não pode ser ‘entregue’ coisa alguma a ele!” – anunciava, apontando para o quadro-negro imaginário onde parecia desenrolar-se sua análise sintática.
“Sujeito, Predicado, Complemento… tão simples, mas tão ignorado!” – ele murmurava, como se estivesse lamentando a pobreza do conhecimento humano.
Com um brilho de convicção nos olhos, ele continuava, mergulhando na abissal piscina de sua própria imaginação: “E o absurdo do absurdo é esse negócio de Terra Plana! Como se Cronos, o próprio Deus do Tempo, permitisse tal disparate! Ah, a humanidade e suas ilusões…” – proferia, balançando a cabeça com um misto de tristeza e desdém.
E assim, entre teorias sintáticas e divagações mitológicas, o Sr. Pestana reinava em seu pequeno reino de absurdos, talvez sem perceber que, às vezes, o maior absurdo é a própria vida.
De repente, como se uma epifania divina o atingisse, o Sr. Pestana sentiu uma onda de clareza atravessar sua mente. “Eu sou Cronos, o próprio senhor do tempo!”, exclamou ele, erguendo os braços para o teto em um gesto grandioso. No entanto, sua alegria foi momentaneamente interrompida por uma sombra de desespero que se abateu sobre ele. Enquanto o Sr. Pestana se entregava à sua fantasia de ser o próprio Cronos, o deus do Tempo, uma epifania inesperada o atingiu como um raio divino. Ele percebeu que, de fato, estava condenado a ficar confinado ao balcão daquele café vintage, sem clientes à vista, com a porta sempre aberta, onde uma placa em neon piscava constantemente “WELCOME”, como um convite irônico para uma realidade que teimava em ignorá-lo.
“Santo Cronos!”, exclamou ele, fazendo uma reverência ao vazio ao seu redor. “É por isso que estou aqui! A maldição de Atenas, transformando a Terra em Plana para jogar World Series of Pogobol Cups, me aprisionou neste café desolado como um castigo eterno!”
Com um misto de resignação e desespero, o Sr. Pestana percebeu que sua sina era servir café imaginário para clientes invisíveis, enquanto o tempo, esse senhor implacável, continuava a fluir como sempre fez, alheio aos devaneios de um deus esquecido.
“Ah, Atenas, sua travessa!”, murmurou ele, balançando a cabeça com uma mescla de admiração e ressentimento. “Que brincadeira cruel você aprontou comigo! Mas quem sabe… talvez ainda haja esperança para este pobre deus perdido em meio aos mortais inexistentes.”
E assim, entre o desamparo e a determinação, o Sr. Pestana permaneceu, condenado a uma existência paradoxal, onde o Tempo reinava supremo, e a realidade se desvanecia entre as nuances do absurdo e da ironia.
Perceber que era um deus não era suficiente para libertá-lo do confinamento do café. “Por Atenas ter transformado a Terra plana para jogar pogo-bol, estou condenado a este balcão vazio para toda a eternidade”, lamentou-se, enquanto observava a porta sempre aberta com o velho letreiro “WELCOME” balançando ao vento.
Enquanto o Sr. Pestana ponderava sobre sua sina, uma ideia surgiu em sua mente divina. “Se não posso escapar deste lugar, então que assim seja! Eu, Cronos, farei deste café vazio meu próprio Olimpo!”, declarou ele, batendo com força no balcão enquanto uma risada ecoava no vazio.
A partir daquele momento, o Sr. Pestana abraçou sua condição divina e transformou o café em seu reino particular. Ele se sentia realizado, afinal, mesmo preso em um local inusitado, ele ainda era o deus do tempo. E assim, entre uma xícara de café e outra, Cronos, ou melhor, o Sr. Pestana, reinava supremo, mesmo que apenas sobre as mesas vazias e o letreiro convidativo que sempre balançava ao vento.
Eis que o kairós no átmo da crase e do sujeito, sendo os deuses, sujeitos ocultos, eternos, portanto fadados ao retorno do rumo, a rumar todavida até o começo. Eis que o kairós, que prega a suspensão e a destruição da realidade enquanto infância, atingiu Sr. Pestana nas pestanas. E tudo que era repetitivo para que houvesse uma linearidade, uma receita prática, liberal, constitucional, para os fatos, a coisa mais importanto do Mundo.
Deu-se conta que apenas com passos para trás reverteria o tempo e o café, seguida da direção do vento e da maré. começou a guardar tudo, desmontar móveis, desligar garatujas, embrulhar enfeites, empacotar rangos e sabonetes. Enquanto o Sr. Pestana refletia sobre sua condição, um estranho efeito começou a se manifestar ao seu redor. O espaço ao seu redor parecia distorcer-se, como se a própria realidade estivesse se desfazendo diante de seus olhos.
De repente, tudo começou a se desmaterializar: os móveis se desmontavam, as garatujas se desvaneciam, os enfeites se desfaziam em fumaça. O café, que antes estava vazio, agora desaparecia completamente, deixando apenas o vazio e o eco de um passado que nunca existiu. E vozes de estações de trem, vozes de terminais urbanos, vozes esperando carruagens, vozes de mercado, de praça e de teatro, murmúrios, incompletos, gigantescos quando uníssono murmuravam num fade-in enquanto Olímpo fade-out;
O Sr. Pestana compreendeu que estava diante de algo muito além de sua compreensão, algo que desafiava todas as leis conhecidas do tempo e do espaço. Ele percebeu que, para encontrar redenção, precisava dar passos para trás, retroceder até o ponto de partida, onde tudo começou. Quando Lenin implementou o Comunismo com sucesso por um breve período de tempo na História. Quando Lutero desafio o imperador-papa. Tipo isso.
Com uma determinação renovada, ele se lançou na jornada de desfazer cada ação, cada decisão, cada instante que o trouxe até ali. Empacotou os rangos e os sabonetes, como se estivesse empacotando memórias e experiências. Desligou-se do mundo como se desligasse um interruptor, mergulhando em um vácuo de incerteza e possibilidades. Ao invés de dois passos para trás para dar um para frente, sua situação era dar todos os passos para trás até que o início o posicionasse a um passo contrário do último final.
E assim, entre o passado e o futuro, o Sr. Pestana embarcou em uma jornada rumo ao desconhecido, onde o tempo e o espaço se entrelaçavam em uma dança surreal. Quem sabe o que ele encontraria no final dessa estrada tortuosa? Talvez a redenção, talvez a perdição, ou talvez apenas mais um enigma na teia infinita do universo.
Uma nova rosa brotando de pétalas mal resolvidas de pais e avós.
A resolução da rosa a partir de suas pétalas que dissolvidas tornavam ao pó.
Cara, nem sei o que rolou depois. Só sei que foi assim.